quinta-feira, 20 de maio de 2010

“Assassinos por natureza” (Natural Born Killers)

“Assassinos por natureza (1994)”, Filme do diretor Oliver Stone, retrata a multiplicidade e a complexidade da violência insana, baseada na construção do mito de bandido na TV, influenciado multidões, exemplificado pelos fãs do casal protagonista, que iam desde a costa leste americana até o Japão. A criatividade em forma de denúncia do filme, no qual os bandidos amam e são ternos, ao mesmo tempo em que matam desprovidos de razão, seguindo sua “natureza” de assassinos, são simbolizados pela alternância entre cenas a cores, preto e branco, verde e vermelho, retratos fiéis de suas mentes deturpadas e da tentativa de envolver o expectador na trama, utilizando mensagens subliminares. São sempre imagens e imagens, lembrando o tempo todo os video-clipes, fazendo referência tanto à infância dos dois quanto ao seu estado psicológico. A intenção da obra é nos fazer experimentar a viagem alucinógena de Mickey e Mallory e não apenas assisti-la.
A ausência de inocentes na trama é muito fácil de se notar, pois pessoas e instituições são igualmente corruptas. Jack Scagnetti, o “guardião da moralidade” é um criminoso sexual disfarçado – sua atuação segura garante bons momentos, como a cena em que interage com Mallory Knox dentro da cela e Dwight McClusky, o diretor do presídio, é um manipulador que adora a mídia e tira proveito da presença dos famosos assassinos para se promover. No meio de tanta prodridão social e artificialidade notamos que Mickey e Mallory Knox são verdadeiros, mesmo que esquisitos e possuindo certa ética natural, característica que nem a mídia ou as instituições governamentais aparenta ter.
É importante perceber que os personagens possuem densidade psicológica, mas isso foi apenas uma das forças que os influenciou. Não matavam apenas por isso. A presenças de cobras e escorpiões no desenrolar do filme, quer seja em forma de tatuagens, quer seja na procura pelo soro antiofídico levam a um único ponto: a natureza assassina dos protagonistas. Essa característica é perfeitamente percebida e analisada no encontro com o velho índio, quando Mickey e Mallory acabam por matá-lo depois de ele tê-los acolhido e alimentado, seguindo assim sua natureza que é a de matar independente de qualquer coisa.

Naturalmente tudo pode desandar em um filme se faltar a mão firme de um diretor competente, mas Oliver Stone fez um belo trabalho em “Assassinos por Natureza”. Dono de um estilo único, este diretor usa seus característicos enquadramentos e leva sua câmera a um nível insano de velocidade e mais tarde de edição. É bem verdade que este filme causou imensas polêmicas e várias acusações pipocaram contra o diretor e seus roteiristas, pois para muitos o filme “incitava a violência”, era uma espécie de “perigo para os jovens” e bobagens do gênero.
Outro aspecto a ser analisado é a comparação entre a mídia e o tempo, com a diferença de que a mídia possui certa artificialidade ("A mídia é como o tempo, só que artificial" - Mickey Knox). Os mitos criados pela sociedade da informação e cultura de massa mantêm a tensão entre o real e o imaginário, mas ainda assim são efêmeros e inseridos na lógica de consumo. Essa artificialidade vem da impressão de realidade passada ao se consumir os “produtos” da mídia, quando na verdade tudo não passa de ficção: é desejo dela que o publico mantenha essa ambigüidade para assim alimentar a sociedade de consumo e sua ambição violenta, que é mais insidiosa, sofisticada e talvez mate mais do que os próprios assassinos de Oliver Stone. Prova disso é a uma das ultimas cenas, na qual a câmera mata o jornalista Wayne Gale, uma figura também artificializada.
O final do filme deixa clara a intenção do diretor de retratar a mídia como apenas uma exploradora de noticias, já que ao término da história tem-se a impressão de que os canais estão sendo mudados, como se toda a saga não passasse de um mero programa de TV a ser digeridos e esquecidos minutos depois, como um fast-food. A idéia de colocar os assassinos como ícones dessa sociedade implicou numa inversão de valores. O que se buscou foi estimular os sentimentos psicóticos que cada um tem internalizado dentro de si, fazendo com que a versão televisiva seja mais glorificada que os fatos reais. Como já disseram antes, “a audiência gera violência e notoriedade gera fama”. Essa foi à fórmula de Oliver Stone para analisar a crueldade sutil dos meios de comunicação em massa do mundo.

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