sábado, 29 de maio de 2010

“Racional” – Tim Maia

Os discos “Racionais” de Tim Maia foram divididos em dois volumes, ambos com nove faixas cada, e também lançados em sequência de um ano: o volume 1 foi lançado em 1975 e o volume 2 em 1976. As capas são iguais e mostram um desenho tosco, retirado de um livro da seita “Universo em Desencanto”. O primeiro só tem composições de Tim e o segundo já traz músicas de outros autores. Tim chega mesmo a se satirizar no disco, com o samba-soul "Paz interior", autor da música, fez dela uma resposta a outra canção sua gravada por Tim, "Gostava tanto de você" - o refrão diz: "eu agora já não dependo de você".
O som é um funk ou soul limpo, quase gospel e sem as firulas da fase mais comercial de Tim. Não há arranjos de cordas virtuosos, ou canções comerciais. Não há aquele tempero brega que a fase posterior de Tim ganhou. Há sim um conjunto de excelentes músicos da black music nacional, fazendo um som de dar inveja. O disco é, como um todo, um desabafo espiritual de Tim, que exorciza seus demônios procurando encontrar o seu equilíbrio, procurando encontrar a paz. É um daqueles discos antológicos da história do pop, marcados pela angústia, quando “a dor presente nos faz continuar”. Normalmente o que o rei do swing nacional faz é transformar sofrimento em notas musicais, e isso se torna um resultado antológico no disco!
A primeira faixa é “Imunização Racional”, um quase reggae com guitarras wha-wha e swing soul. É a menos comprometida com a cultura racional e pode passar como uma canção normal, por isso mesmo foi a que fez mais sucesso na época. Em seguida vem “O grão mestre varonil” à capela, que apesar da voz de trovão de Tim se perde na idolatria ao charlatão “seu” Manoel. Na seqüência, vem uma das melhores faixas do disco “Bom Senso”, um funk redondo com baixo marcando e bateria swingada que explodem no refrão em um soul gritado pela voz forte de Tim Maia. Sua letra é um relato da conversão do doidão. Na seqüência “Energia Racional” e o soul arrastado de “Contato com o Mundo Racional”. As duas últimas são em inglês : “You don’t know what I know” e “Rational Culture”. Lembrando dos seus tempos nos EUA, Tim Maia fala como um pregador negro do Bronx, chamando o ouvinte como James Brown e mandando um funk excelente, cheio de swing, que taca fogo em qualquer pista. As linhas de baixo são todas memoráveis, e os riffs são marcantes, grudando na cabeça do ouvinte que acaba até querendo saber que diabos é essa tal cultura racional.
O segundo disco começa com o balanço de “Quer queria, quer não queira” e segue com “Paz Interior” com letra irmã a de “Bom Senso”. O primeiro grande momento é “O Caminho do bem” um funk leve e pegajoso, que repete milhares de vezes o mantra “o caminho do bem...”, e se tornou febre após ser usada na cena do filme “Cidade de Deus”. Esse disco é mais fraco que o primeiro, mas traz ainda à excelente “Guiné, Bissau, Moçambique e Angola Racionais” que vem se tornando como hits black, graças a seu swing irresistível, baixão marcante, solo de rock n’ roll e influências africanas. É a fusão do som negro dos guetos americanos com as canções tradicionais africanas e o molejo do samba brasileiro.
Os discos do Tim Maia Racional são caros e difíceis de encontrar, mas hoje em dia estão mais acessíveis pela internet, e em breve alguém vai perceber o potencial dos álbuns e relançá-los. Pelo glamour e fetiche de se pesquisar um disco que é um tributo a uma seita obscura e ninguém conhece, e muita gente esquece que esses álbuns também tem lá o seus defeitos, como toda forma artística no meio social. As letras são repetitivas e um pouco fracas em algumas canções, talvez algumas músicas pudessem ser cortadas para o lançamento de um disco único. O que não resta dúvida é que pelo menos esse movimento inspirou uma coisa boa no cenário da musica brasileira: Um dos melhores discos de música negra feitos no Brasil, é pura genialidade cultural.

Nenhum comentário:

Postar um comentário