Resenha:
“Dummy”, aclamado disco de estréia, da banda britânica Portishead. O álbum foi lançado em 1994, modestamente nessa época apresenta onze climáticas canções capazes de reunir influências tão díspares como jazz, trilhas de filmes, música francesa dos anos sessenta, todas permeadas por loops, scratches e uma levada tributária à black music de momentos menos festivos. Tudo para, no fim das contas, transportar o ouvinte para um enevoado ambiente de new cabaret — não à toa, o som arregimentou e arregimenta uma legião de fãs entre todos aqueles que curtem uma boa fossa.
Acontece de modo que, dor-de-cotovelo sempre vai bem acompanhada por uma aura de classe e glamour. E isso, a vocalista Beth Gibbons tem de sobra. Dona de um timbre que se sobressai mais pela originalidade do que pela técnica, sua voz é capaz de conduzir o ouvinte aos meandros dilacerados da dor de amor e do arrependimento — temas recorrentes no álbum, mas não só. Com um tom intimista, e os arranjos do multi-instrumentista Geoff Barrow, a banda — formada ainda pelo contrabaixista Adrian Utley e o engenheiro de som Dave McDonald — faz um som rico em diferentes texturas, muitas vezes dosadas por uma pitada de distorções, característica essa mais sentida no disco seguinte, lançado em 1997, e batizado simplesmente de Portishead.
A repercussão do disco, aliada à postura reclusa e low profile da banda — avesssa a entrevistas e ao culto indistinto à personalidade — foi tamanha que, toda nova banda, com ou sem mulher nos vocais, a surgir com um som levemente semelhante, já era alçada à categoria de "o novo Portishead". Assim, temos um corolário de exemplos, com mais ou menos personalidade, que sempre eram descritos como "uma coisa assim meio Portishead". O que só atesta o compromisso da banda empenhada em honrar a sua justa reputação e primazia na busca por um universo musical singular e representativo.
Quando se conheceram numa fila de desempregados, Gibbons e Barrow possivelmente não imaginavam lançar um dos discos mais aclamados dos anos 90. Um dos ápices da produção britânica do período, o álbum contribuiu para definir um estilo, logo reconhecido como Trip-Hop. Um tempo depois, Dummy veio a conquistar o Mercury Prize — mais importante distinção da indústria musical inglesa — na categoria álbum do ano. O fato de ter sido eleito o melhor do ano também por publicações de perfis tão diferentes, evidencia a capacidade do Portishead de sensibilizar diferentes públicos sem comprometer sua expressão criativa.
O disco utiliza suntuosos acordes de teremim — mesmo instrumento usado por artistas díspares. Acompanhada por uma bateria levada como uma marcha. "Sour Times" foi o primeiro single e tem toques de tango eletrônico, em uma frase de contrabaixo repetida continuamente. Com uma cadência mais rápida que a música anterior, a curiosidade fica por conta do inusitado sample extraído da trilha de Missão Impossível.
"Strangers", próximo capítulo do disco, traz Beth Gibbons em dois registros diferentes — uma introdução mais seca, seguida por um longo trecho em que a voz surge mais direta e encorpada. Aqui a banda sampleia o grupo do jazzista Wayne Shorter, o Weather Report, e o resultado é uma músicas bem divertida. Swingada, entrecortada por uma base pesada e incisiva, sem nunca recorrer a obviedades e lugares-comuns para fazer dançar, vocais lamuriosos, batida seca e sample.
Em "It's a Fire', outro ponto alto, uma bateria dobrada compõe um dos momentos mais doces do disco. Beth Gibbons canta a dor da danação, de uma impossível transcendência em uma melodia, aqui em roupagem mais lenta, com uma seção de cordas no começo e no meio da música, mostrando que a repetição é um procedimento usual no Portishead, mas nada cansativo.
"Numb", a faixa que mescla múltiplos sons — sintetizadores, que mais parecem pedaços de voz. Tem ainda a bateria de jazz e uma musicalidade que se rende à opacidade nos sons.
Então o disco mergulha na mais intensa melancolia de faixas como "Roads" e sua proeminente seção de cordas, "Pedestal", que é irmã de com seu apelo jazz; e "Biscuit", uma das mais pesadas e arrastadas do disco. E por fim, o arremate, o gran finale, com a já saudada "Glory Box" e suas derramadas e decrescentes ou mesmo crescentes guitarras.
Muito legal o som desse grupo, mas devemos tentar ouvir e captar o máximo possível das características da música. Ao meu modo de ver, um som bem alternativo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário