A Psicologia é uma ciência que estuda o Homem, seus aspectos mentais, seu comportamento, sua forma de reagir diante das diversas situações com o objetivo de facilitar a convivência consigo próprio e com os outros seres vivos. Nenhum aspecto da vida humana foge aos interesses da psicologia. Da vida pré-natal à morte, no lar, na escola, no trabalho, na saúde, na doença, em pequenas comunidades, em grandes metrópoles, em conflitos conjugais, administrativos, empresariais, pessoais, etc. Embora consolidada como objeto de estudo da ciência apenas por volta de 1879, com Wilhelm Wundt, sua origem confunde-se com a história da filosofia. A gênese da psicologia pode ser localizada no quarto e quinto séculos a.C. com os filósofos gregos Sócrates, Platão e Aristóteles levantando questionamentos e reflexões fundamentais sobre o funcionamento da razão humana. Esses filósofos trouxeram questões sobre como as pessoas percebem a realidade, o que é a consciência e como as pessoas são capazes de exercer o livre arbítrio. Assim, durante séculos, foi como estudo da alma que a psicologia existiu.
Contudo, o conhecimento adquirido por meio de reflexão e especulação, típico da filosofia, começa a ser gradualmente questionado pela sociedade. Com a necessidade de o conhecimento ser cada vez mais sistemático, crítico e rigoroso, através, principalmente, do emprego do método experimental, uma nova forma de conhecimento começa a se consolidar como uma fonte de verdade e sabedoria; surge, com isso, a ciência. A primeira das ciências a se desvincular da filosofia foi a Matemática, já no ano 300 a.C com Euclides.
As outras ciências só muito mais tarde se tornaram autônomas: a Física, na primeira metade do século XVII com Galileu; A Química com as pesquisas de Lamarck e C. Bernard no século XIX. No final do século XIX e início do século XX, vimos o aparecimento das Ciências Sociais, da Psicologia, bem como da Lógica. Tudo isto veio a questionar a noção de saber total para a filosofia. De certo modo, podemos dizer que, quando se trata um assunto, até então filosófico, pelo método experimental e positivo, este assunto se torna objeto de uma nova ciência.
Desse modo, a Psicologia passa a ser considerada ciência simplesmente pelo fato de os cientistas a ela se dedicarem experimentalmente. Valendo-se do método experimental, os pesquisadores já tinham consolidado definitivamente a Física e a Biologia, ciências estas que detiveram descobertas fundamentais para o surgimento da psicologia. Assim, o fundador da psicologia como ciência foi Wilhelm Wundt que em 1879, na universidade de Leipzig, na Alemanha, ao criar o primeiro laboratório experimental de psicologia. Seu método de pesquisa seguia a melhor tradição científica, envolvendo a observação, experimentação e medição. Este foi o marco histórico da psicologia como uma ciência e o grande mérito de seu fundador foi o fato de desvinculá-la da filosofia, tornando-a uma verdadeira ciência com autonomia em relação às demais áreas do conhecimento.
Wundt começa definindo o objeto da psicologia como o estudo da consciência. Para isso, decompõe-na em suas partes mais elementares; à semelhança da divisão em átomos da química. A Psicologia deixa de ser o estudo da vida mental e da alma e passa a ser o estudo da consciência ou dos fatos conscientes.
O grande desafio da época se resumia em estudar a consciência através dos métodos experimentais e quantitativos que eram pertinentes às outras ciências. Para atingir este objetivo, no seu Laboratório Wundt treinava os cientistas para que eles respondessem a perguntas específicas e bem definidas sobre as experiências vividas ali dentro do espaço criado por ele. O método era rigoroso e exigia que os observadores tivessem que realizar a experiência pelo menos dez mil vezes antes de expor os resultados publicamente.
Utilizava como método de estudo a introspecção. Esse método consistia em, no laboratório, observadores treinados descreverem as suas experiências a estímulos externos resultantes de uma situação experimental. Através da introspecção, a pessoa observava suas próprias experiências (emoções, percepções, recordações, etc) e as relatava. Por exemplo: os observadores ouviam um som e em seguida descreviam o que sentiam. Este método, que se resume em uma espécie de auto-análise, permitia o acesso à experiência consciente do indivíduo. Se a Psicologia, segundo Wundt, é a ciência da experiência, o método de pesquisa deve envolver, portanto, a observação dessa experiência. Como ninguém pode observar uma experiência, exceto a pessoa que a tem, o método deve envolver a auto-observação ou introspecção.
Wundt definiu regras importantes para o uso correto da introspecção em laboratório. Primeiramente, o observador devia ser capaz de determinar quando o processo pode ser introduzido; tinha que se encontrar num estado de muita concentração; devia estar apto a repetir a observação numerosas vezes; e, finalmente, as condições experimentais deviam ser capazes de variações em termos de manipulação controlada dos estímulos. Esta última condição invoca a essência do método experimental: variar as condições da situação de estímulo e observar as mudanças resultantes nas experiências do sujeito.
Esse método teve seu mérito por conseguir resultados eficientes e, principalmente, por consagrar definitivamente a psicologia como uma ciência. Contudo, apresentava algumas sérias limitações. Em primeiro lugar, excluía automaticamente do estudo as experiências com crianças e animais, pois estes não podiam ser treinados adequadamente para utilizar a introspecção. Para poder relatar os elementos básicos desta introspecção, tal como era praticada na universidade de Leipzig, era necessário um treinamento árduo. Esta habilidade só era adquirida após um longo período de rigoroso aprendizado. Em segundo lugar, os psicólogos da época consideravam fenômenos complexos, tais como pensamentos, moralidade, linguagem e anormalidade, impróprios para estudos introspectivos e, portanto, fora do alcance da ciência. Em conseqüência disso, outros movimentos surgiram posteriormente para remediar essas falhas.
Assim, Wundt criou o que, mais tarde, seria chamado de estruturalismo, por seus opositores, os funcionalistas. Como vemos, este termo, embora não necessariamente desapropriado para o método wundtiano, não foi escolhido por seu criador, por isso deve ser usado com ressalvas. Titchener levou a idéia da Psicologia para os Estados Unidos, modificando-a em alguns pontos. Essa Psicologia científica fundada por Wundt e seguida por Titchener e, posteriormente, por W. James se ramificou em duas escolas: Estruturalismo e Funcionalismo. Contudo, estas correntes foram abandonadas por volta da metade do século XX, sendo substituídas por novas teorias mais bem fundamentadas como o Behaviorismo, a Gestalt e a Psicanálise, as quais se tornaram as três mais importantes tendências teóricas da Psicologia atual.
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