Em algumas vezes o uso da filosofia proporciona um certo esclarecimento do sentido das palavras, então poderíamos dizer que, a filosofia segue o seu papel originário: revelar ou trazer algo que para nós estava de modo obscuro, daí se tem o primeiro sentido da palavra verdade. E por outro, com os anos passados, as reflexões filosóficas tendem a tornar oculto para nós o sentido originário de certos conceitos.
Na origem etimológica, a contradição, seu conceito não significa nem mais nem menos do que se contrapor a um dizer, um contradizer, expressar convicções opostas ás apresentadas anteriormente.
O diálogo consiste em uma polaridade originária que é própria da dialética, e contradizer a alguém não é apenas opor-se a, mas opor-se a alguém sob um mesmo ponto de vista, sob um objeto comum que está sendo analisado lingüisticamente. Esse contradizer pode ser analisado a partir de uma versão meramente negativa, ou seja, ao discurso lúcido de alguém, contraponho qualquer argumento que o refute, sem procurar saber das razões, essa seria uma tentativa aristotélica, que já tinha na verdade sua formulação originária em Platão, embora estivesse inacabada.
Platão não utiliza o termo contradição com sentido de oposição, como mostrado anteriormente, na verdade quem faz esse uso é Hegel, daí acreditamos que podemos mostrar nos diálogos platônicos o uso filosófico de uma oposição, onde cada um dos opostos apresentam uma insuficiência, ao serem analisados isoladamente, encontrando a resolução de sua falta só em sua correlação mútua.
A contradição que representa o impulso na busca do bem, sendo o elemento vital e processual que está na origem da amizade, é uma contradição por insuficiência ou falta, ou seja: o não possuir o bem leva o amigo a procurar daquilo que lhe falta. Mas essa contradição não é de modo algum resultado de uma oposição entre opostos inconciliáveis.
A teoria do amor de Platão termina vindo revelar dois diferentes modos de resolver um mesmo problema, daí a insuficiência originária é a que caracteriza todo o ato de amor. Essa insuficiência está claramente vinculada à presença do homem no mundo sensível. E a teoria das Formas também de Platão representa um ponto de vista em que a visão dualista traz sua maior ênfase. Daí surge as oposições tradicionais entre aquilo que é imaterial, imutável, universal, verdadeiro – as formas – com o que é material, mutável, singular, falso – as coisas sensíveis diante desse contexto. Essa teoria irá ter uma de suas apresentações mais emblemáticas na obra VI da República, e será posteriormente posta em prática pelo diálogo Parmênides.
Poderíamos dizer que o diálogo Parmênides, se trata basicamente do exercício intelectual, ou seja, posição defendida pelo próprio D. Ross, mas na verdade o diálogo nos diz muito mais do que isto.
O Parmênides nos mostrou primeiro, não que todas as formas de oposições levam necessariamente à incongruência do discurso, o que viabilizou a própria dialética, que é justamente o método por excelência do estudo crítico das oposições no pensamento filosófico, levando ao conhecimento da verdade. Aquele diálogo revelou o uso falso da relação dos opostos, e o modo como o uso dele nos leva a contradições disruptivas, e por outro lado apontou a necessidade de repensar a relação uno - múltiplo em uma outra dimensão. O sofista sempre procurará repensar essa relação uno – múltipla.
As doutrinas não-escritas de Platão começaram a adquirir uma relevância, a partir dos estudos da chamada Escola de Tübingen, que teve como maiores destaques foram H. Krämer e K. Gaiser. Posteriormente, os estudos foram também aprofundados por G. Reale na Itália. Daí, desde então, a proposta de uma releitura das obras platônicas pelo viés das doutrinas não-escritas. O objetivo desse trabalho é apenas mostra alguns traços de teorias metafísicas divergentes que se apresentam nos próprios diálogos escritos e como também no âmbito do Platão exotérico há a tendência da superação de uma visão integradora, onde nela se procura romper com o dualismo radical entre mundo formas e mundo sensível.
A questão central que gira em torno da possível conciliação entre modos opostos subsumidos sob a qualificação de prazer. E Sócrates adverte que essa é uma possível relação de dificuldade entre uno e múltiplo, e mais especificamente entre a forma imutável e una as suas diversas formas de aparição na concretude. E com isso há uma necessidade de encontrar uma possível mediação entre mundo das formas e mundo sensível. Todos nós somos jogados na questão central do platonismo, com uma tentativa, antes não tão postas claramente, de uma possível solução para essa velha dicotomia.
Nesse texto encontramos um desfecho para a interpretação inicial da dialética, segundo o autor: é no conceito de alma do mundo e em uma dialética que vai pela busca da unidade entre opostos correlativos que se dá a superação da dicotomia radical da metafísica platônica como é tradicionalmente conhecida.
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