terça-feira, 16 de novembro de 2010

“Good Copy, Bad Copy” - Pirataria: Modificando as Relações de Produção

O documentário “Good Copy, Bad Copy” - dirigido pelos dinamarqueses Andreas Johnsen, Ralf Christensen e Henrik Moltke - revela como as pessoas ao redor do mundo têm se colocado diante da questão direitos autorais, através do desrespeito deliberado das leis desses direitos e da formação de grupos e até partidos políticos que requerem mudanças nessas leis. Para a maior parte delas “as leis atuais estão inibindo o fluxo de criatividade” e o “Copyright é uma forma de prevenir que a sociedade se torne produtora de cultura”.
Transformar um tempo em que as possibilidades artísticas estão esgotadas requer mais do que uma revolução criativa. Uma vez que a replicação e a reapropriação de informação alheia fazem parte dessa revolução, na forma de sampling, mashups e P2P, a transformação exige também o ingresso nas frentes de batalha pela cultura livre e pela partilha de conteúdos.
“Good Copy, Bad Copy” é debate sobre direitos autorais e cultura. O filme retrata a atualidade do tema e as controvérsias geradas pelas novas tecnologias. Um dos focos é a não compatibilidade dos formatos considerados padrão e o perfil dos consumidores de cultura nos dias atuais. Foi realizado na Dinamarca e exibido na emissora local DR2.
A Indústria do Entretenimento ainda não sabe como lidar com a nova cultura de reprodução. Ou não quer. Como discutido em sala de aula, o impacto do atual modo de produção artística para quem já tem um modelo constituído no mercado é muito grande e ao longo do processo da democratização de informação, novos atores serão incluídos e outros excluídos. A opção tomada pela indústria para manter sua posição no mercado é a de pressionar através das ferramentas disponíveis no meio jurídico. E na medida em que a indústria sente que não existe alternativa que não seja se adaptar, ela continua a usar as leis para impor um novo modelo de negócios.
O filme vai questionando justamente as principais frentes de batalha pela cultura livre e a partilha de conteúdos como Estados Unidos, Suécia e Brasil. Entre os entrevistados destacam-se os mashupers Girl Talk e Danger Mouse, John Buckman da netlabel comercial Magnatune, Anakata e Tiamo do Pirate Bay, Lawrence Lessig e Siva Vaidhyanathan.
Numa perspectiva mais sociológica clássica, filmes como “Good Copy, Bad Copy” não seriam exibidos dentro dessa temática. O conceito de revolução convencional fala de transformações nas estruturas de poder de uma sociedade.
Durante muito tempo a “revolução” designava os movimentos bruscos dos astros, que passeavam pela galáxia indiscriminadamente provocando desespero nos primeiros pensadores que tentavam entender o seu funcionamento. Logo depois foram orientados sobre a mudança no conceito de revolução ocorrida após a queda da bastilha em 1789. De uma explicação da mudança dos astros para uma mudança brusca nas estruturas de poder de uma sociedade, uma revolta, uma reorganização da vida orientada por ideais iluministas.
Um olhar mais atento perceberá a revolução apresentada no documentário de Andreas Johnsen, Ralf Christensen e Henrik Moltke. Uma revolução que mexe sim com as estruturas de poder. Do poder de criar e veicular a criação livre dos autoritarismos presentes nas leis de direitos autorais.
O que "todo mundo" pensa hoje sobre as possibilidades de construção colaborativa do conhecimento, da arte, das tecnologias? No decorrer do documentário, muitas pessoas apresentam seus pontos de vista sobre criatividade, propriedade intelectual, compartilhamento pela internet etc. Aparecem tanto os ciberativistas quanto os defensores da indústria cultural que alega ter prejuízos com a nova indústria cultural. Termos como sampler, download, upload, bit torrent, creative commons ('criei tive como', em português do Brasil!), copyleft (em oposição direta ao copyright), entre outros, são recorrentes em todo o documentário. Tais termos indicam que há algo acontecendo de novo no mundo da criação artística. Brotam reclamações, processos, cancelamento de sítios eletrônicos, fechamento de provedores de internet, por todos os lados. É certo que isso está incomodando.
Chamam de “pirataria”. Um dos sujeitos que aparece no filme, representante de Hollywood, chega a definir o conceito: segundo ele, “pirataria é a apropriação inautorizada e sem compensação de propriedade intelectual”. O DJ Girl Talk defende-se com uma pergunta provocativa: “porque perseguir alguém que claramente só está tentando fazer música?” O fio condutor do filme é uma discussão sobre a construção colaborativa do conhecimento, o que certamente incomoda os interesses de quem ganha com a privatização dos saberes.
O que entendemos por criatividade? A constituição dos EUA fala em proteger os direitos dos criadores, mas o que isso significa? Até que ponto a justiça, com sua emblemática imagem de olhos vendados, alcança os seus propósitos de “proteger os criadores”? Os argumentos de alguns entrevistados caminham no esclarecimento dessas questões. Dr. Lawrence Ferrara, por exemplo, sobre as noções de propriedade intelectual e direitos autorais, pergunta: “quem é o dono? E do quê? Qual a função do direito autoral?” Representantes da indústria alegam que “as coisas ficaram fora do controle”. Controle de quê (quem)?
Por outro lado, em outubro de 2007 a banda inglesa Radiohead anunciou o lançamento do seu sétimo álbum, intitulado “In Rainbows”, e o disponibilizou para venda apenas pela internet. Sem contrato com a gravadora EMI e mantendo um estúdio próprio, a banda decidiu disponibilizar o disco em mp3 para download pelo preço de zero a 100 libras, de acordo com o que o cliente escolhesse pagar.
Apesar dos representantes da banda não terem disponibilizado nenhum número com relação às vendas, o Forbes.com revelou que já no primeiro dia do lançamento do disco, apesar de ser grátis no site oficial, 240 mil pessoas fizeram o download através do BitTorrent.

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